Um currículo político que Brasília não deveria esquecer
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Andrey Neves
José Roberto Arruda quer voltar ao comando do Distrito Federal.
Mas, antes de discutir promessas, obras e planos para o futuro, Brasília precisa olhar para o passado.
E não para uma fotografia isolada.
Para o currículo completo.
A trajetória política de Arruda inclui a renúncia ao mandato de senador em meio ao escândalo da violação do painel eletrônico do Senado. Anos depois, seu nome voltaria ao centro de outro dos maiores escândalos políticos da história do Distrito Federal: a Caixa de Pandora.
Durante entrevista, ao ser questionado justamente sobre esses episódios e sobre o motivo pelo qual o eleitor deveria confiar novamente nele, Arruda afirmou que respondeu às acusações na Justiça.
Também disse que o vídeo em que aparece recebendo dinheiro seria de dois anos antes de assumir o Governo do Distrito Federal.
Como se o simples fato de ainda não ser governador, por si só, resolvesse todas as perguntas que aquele episódio deixou.
Mas essa resposta não elimina a pergunta que continua diante do eleitor.
Por que alguém com esse histórico deveria receber novamente as chaves do Buriti?
Arruda também passou a falar sobre outros políticos, citando acusações e casos que, segundo ele, também deveriam ser questionados.
É uma estratégia conhecida na política: quando confrontado com o próprio passado, apontar para o passado dos outros.
Mas os possíveis erros de outros políticos não apagam os seus.
Se outra pessoa errou, que responda por seus próprios atos.
Isso não transforma automaticamente o histórico de Arruda em algo menos grave.
Um histórico não desaparece porque o tempo passou
Na vida comum, confiança não funciona assim.
Uma pessoa pode responder pelos seus atos perante a Justiça, cumprir uma pena ou conseguir reconstruir sua vida. Isso não significa, porém, que todos sejam obrigados a esquecer o que aconteceu ou a confiar novamente nela.
E na política deveria ser assim também.
A velha frase “roubou, mas fez” parece perder força a cada ano.
Para muita gente, obra não compra perdão. E mandato não deveria servir como prêmio para quem já carregou um histórico tão pesado na vida pública.
Confiar novamente é uma decisão pessoal.
Mas uma coisa deveria ser regra: nenhum político deveria estar acima de perguntas, críticas ou da cobrança pelo próprio passado.
Uma obra não apaga um escândalo. E trabalhar na política não é favor. É obrigação.
E pagamos muito bem! Diga-se de passagem que uma bagatela de R$ 41.845,49 por mês faria a diferença na vida de qualquer um.
Durante a entrevista, Arruda afirmou que tentaram reduzi-lo a uma imagem ruim.
Mas o debate sobre seu passado político não surgiu simplesmente porque alguém decidiu construir uma imagem negativa sobre ele.
Os episódios são públicos, foram investigados e passaram pelo Judiciário.
Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça manteve a condenação de Arruda por falsidade ideológica relacionada à elaboração de documentos para justificar valores recebidos de Durval Barbosa, no contexto da Caixa de Pandora. A decisão registrou que, segundo a acusação acolhida no processo, foram inseridas informações falsas em declarações usadas para justificar o recebimento dos valores.
É justamente por isso que não basta responder ao eleitor com uma lista de obras.
O problema não desaparece porque o tempo passou.
Nem porque surgiram novos escândalos envolvendo outras pessoas.
Nem porque é possível apontar erros de adversários.
Se outros políticos cometeram irregularidades, devem ser investigados e responder por elas.
Mas o currículo de Arruda não pode ser reescrito com base nos problemas dos outros.
FONTES:


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